O professor pode ensinar a turma a cooperar,
escolher e decidir ao mesmo tempo em que dá conta dos conteúdos das
disciplinas.
Na família e na vida profissional e social, é
preciso saber se expressar, consultar, questionar,fazer planos,
tomar decisões, estabelecer compromissos e partilhar tarefas. Essas
ações, envolvendo aspectos práticos, éticos e estéticos, podem ser
relativamente simples, como é o caso de escolher o que preparar
para uma refeição ou um trajeto. Outras vezes, são complexas, como
estabelecer prioridades num orçamento e atribuir ressponsabilidades
na realização de um projeto. Na escola, atividades em grupo
qualificariam para desafios como esses, tão necessários na vida
social. Mas isso frequentemente esbarra em obstáculos.
Quem
acha que o papel do professor é só"passar" conhecimentos talvez
veja a aprendizagem e interativa como um devaneio teórico ou
como ilusões de certas propostas pedagógicas. Isso, na
prática, reduz o ensino à instrução individual em massa quando as
classes não são coletivos de trabalho cooperativo. Essa visão leva
a uma prática em que só o professor tem a palavra e a interação dos
estudantes é desprezada. Por isso, as turmas são simplesmente
reunidas- não se pensa em construí-las. Atitudes dessa natureza,
aliás, têm o respaldo de famílias que veem um convite à
diversão quando se abre espaço à participação dos filhos.
Já quem
reconhe a importância dessa participação ativa e interativa e se
dispõe a promovê-la em situaçõesreais enfrenta bem o desafio de
colocá-la em prática mesmo em classes numerosas - como mostrou a
reportagem Como Agrupo Meus Alunos? , capa da edição de
março de NOVA ESCOLA. Para promover a
autonomia, não bastam materiais didáticos e um professor
protagonista. è preciso propor à classe atividades coletivas mais
estruturadas do que as aulas expositivas, pois todos devem estar motivados e conscientes do sentido
delas.
Para isso , cabe ao professor atuar com seus colegas e com a
coordenação pedagógica,aliás,com a mesma dinâmica que pretende
propor em sala de aula. Além de se perguntar"de que
forma a atividade em grupo melhora o ensino da minha
disciplina?" , é necessário formular
outra:"De que forma minha disciplina pode promover a
aprendizagem cooperativa?"Sim ,é possível também ter
a disciplina a serviço dessa formação coletiva e não apenas o
inverso. Com isso, tem-se o foco na aprendizagem e no
desenvolvimento da turma, não somente no ensino de
conteúdos.
É claro que nem
tudo deve ser feito de forma coletiva, pois são igualmente
essenciais a exposição do professor e tarefas individuais de
crianças e jovens, mas é preciso compor esses momentos articulando
com coerência as ações pesssoais e coletivas. Essa construção
conceitual e afetiva depende do trabalho em grupo, em que se
desenvolvem afinidade e confiança, identificam-se potencialidades e
aprende-se com os demais. Com a diversificação do planejamento, são
contempladas as diferentes necessidades e propensões dos alunos.
Não só na rede pública, mas especialmente nela, os mais
beneficiados por essa construção são os que vêm de contexto
cultural limitado, sem outras oportunidades que não
as da escola para a sua emancipação.
As boas escolas desenvolvem práticas apropiadas a cada faixa
etária. Isso porque é bem diferente desenvolver conteúdos de
instrução em atividades cooperativas se for uma classe de
alfabetização com professora única ou se for uma sala de
adolescentes com vários professores de disciplinas. Mas a prática
faz sentido desde a Educação Infantil até a pós-graduação. Aliás,
logo mais estarei com quase 40 mestrandos, que não esperam minha
chegada para começar a aula. Já estarão discutindo as leituras da
semana em seus grupos de referência. Atitudes semelhamtes podem ser
encontradas em diferentes cursos, famílias e empresas,mas sempre em
coletivos que valorizem a autonomia e a cooperação.
Luis Carlos de Menezes (é físico e educador da
Universidade de São Paulo (USP)).